A modernização das infraestruturas críticas do Setor de Água e Saneamento (WWS – Water and Wastewater Systems) viabilizou a automação em larga escala de Estações de Tratamento de Água (ETAs) e Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). A orquestração das variáveis físicas do processo — como vazão, turbidez, pH e aplicação de reagentes químicos — é executada por Controladores Lógicos Programáveis (PLCs) e Unidades Remotas de Telemetria (RTUs), integrados a ecossistemas de supervisão SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition). Contudo, a crescente interconexão entre as redes de tecnologia da informação (IT) e as redes de tecnologia operacional (OT) expandiu a superfície de ataque dessas instalações, expondo os sistemas de saneamento a severos riscos de ataques físico-cibernéticos (Cyber-Physical Attacks).
A vulnerabilidade vetorial sobre as infraestruturas de saneamento fundamenta-se, com frequência, na manutenção de canais de acesso remoto não autenticados, firmware de PLCs desprovidos de verificação de assinatura digital e ausência de segregação de rede adequada. Agentes maliciosos que logrem acesso ao ambiente SCADA podem injetar comandos falsos de controle ou alterar a lógica dos controladores industriais (Ladder Logic). Essa intervenção maliciosa pode forçar o aumento descontrolado na dosagem de compostos químicos utilizados no tratamento — como hidróxido de sódio ou cloro —, comprometendo a potabilidade do recurso e gerando contaminação ou paralisia no abastecimento público de grandes centros urbanos.
A preservação da integridade física e operacional do setor de saneamento exige a adoção de uma arquitetura de defesa em profundidade fundamentada na norma ISA/IEC 62443 e no Modelo Purdue. É imperativo estabelecer uma microssegmentação rígida entre os domínios de IT e OT por meio de firewalls industriais com inspeção profunda de protocolos SCADA (Modbus/TCP, DNP3, EtherNet/IP). Complementarmente, a engenharia do processo deve implementar mecanismos análogos de segurança e intertravamentos físicos (Hardware-based Safety Interlocks) que independam do controle lógico de software, garantindo que a aplicação de reagentes permaneça contida em faixas biologicamente seguras. O monitoramento contínuo de anomalias em tráfego industrial e a auditoria periódica dos programas dos PLCs consolidam a resiliência dessas infraestruturas vitais perante ameaças híbridas contemporâneas.
